Rede Corporativa
, 18 de setembro de 2020.
01/12/1998
Volume 2 - Número 2
9 - Marie Curie e a Academia Francesa de Ciências

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Marie Curie e a Academia Francesa de Ciências

Marie Curie and the French Academy of Sciences

Henrique Seiji Ivamoto, editor
Acta Medica Misericordiæ e Centro de Estudos da Santa Casa da Misericórdia de Santos

Ivamoto HS. Marie Curie and the French Academy of Sciences. Acta Medica Misericordiæ 1999; 2(2):89-90 

Resumo

Marie Curie, de origem polonesa, ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1903. Seu ingresso na Academia Francesa de Ciências foi vetado, possivelmente devido a discriminação sexual ou à sua origem. Posteriormente, ganhou o Prêmio Nobel de Química, foi homenageada nos Estados Unidos pelo presidente Harding e por universidades e instituições científicas de muitos países. Durante a primeira guerra mundial, produziu unidades móveis de radiologia. O seu Instituto do Rádio desenvolveu pesquisas relacionadas à radioterapia e à medicina nuclear. Em conseqüência do veto, a Academia ficou sem um dos maiores nomes da ciência.

Descritores: História da Medicina. Mulheres. Medicina nuclear. Radioterapia. Radiologia.

Summary

Marie Curie, of Polish origin, was awarded the Nobel Prize for Physics in 1903. Her admission to the French Academy of Sciences was vetoed, probably due to discrimination against her sex or her origin. Later, she was awarded the Nobel Prize for Chemistry, was paid homage in the United States by President Harding and by universities and scientific institutions from many countries. During World War I, she produced mobile radiology units. Her Radium Institute developed research related to radiotherapy and nuclear medicine. As a result of the veto, the Academy remained without one of the greatest names in science.

Key-words: History of Medicine. Women. Nuclear Medicine. Radiotherapy. Radiology.

 

"Foi pelo trabalho que a mulher transpôs, em grande parte, a distância que a separava do homem".

Simone de Beauvoir (2)

 
 

 

Marie Curie nasceu em 1867 em Varsóvia, Polônia, como Marja Sklodowska. Em 1891, mudou-se para a França para prosseguir em seus estudos na Sorbonne. Em 1895 (1) casou-se com o professor e físico francês Pierre Curie. Descobriu a radioatividade do tório. O casal descobriu o polônio e o rádio em 1898 e, em 1903, receberam o prêmio Nobel de física, juntamente com Henri Becquerel, e a Davy Medal da Royal Society de Londres (4,6). Em 1906, com a morte do marido, vítima de atropelamento, tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cátedra na Sorbonne.

Seu ingresso na Academia Francesa de Ciências foi negado devido ao seu sexo (3,5), à sua origem e a polêmicas sobre sua religião, embora não admitido publicamente. A negativa tornou-se um absurdo jocoso quando a rejeitada ganhou o prêmio Nobel de Química em 1911. Foi a primeira pessoa a receber dois dos prêmios instituídos pela Fundação Nobel. Derrubou o mito da superioridade intelectual masculina, como de seu contemporâneo James Stephens, para quem "mulheres são mais sábias que os homens porque sabem menos e entendem mais". Por seu turno, Curie recusou a cruz da Legião de Honra.

Durante a primeira guerra mundial, usando recursos oferecidos pela União das Mulheres da França , construiu unidades móveis de radiologia, montadas em automóveis e treinou 150 moças para operá-las nas frentes de batalha.

Com sua filha Irène, organizou o Instituto do Rádio, centro de pesquisas de química e física nuclear. A Fundação Curie foi criada em 1921 para patrocinar pesquisas nas aplicações médicas diagnósticas e terapêuticas das radiações. No mesmo ano, foi homenageada nos Estados Unidos pelo presidente Warren G. Harding e por mulheres daquele país. Seguiram-se homenagens de universidades e de instituições científicas em muitos países, que lhe concediam títulos de doutor honoris causa . Mãe de família, teve dois filhos e trabalhou até próximo à sua morte, que ocorreu em Sancellemoz, Suiça, em 1934, vítima de leucemia causada pela exposição à radiação (7).

O fato de Madame Curie ter sido impedida de ingressar na Academia Francesa de Ciências em nada diminuiu o seu brilhante currículo. Com o impedimento, contudo, a Academia ficou sem um dos maiores nomes da ciência. Entre as anotações da cientista, a seguinte, escrita em 1921, nos dá uma idéia de seus pensamentos:

"A Humanidade certamente necessita de homens práticos, que obtêm o máximo de seu trabalho e, sem esquecer o bem geral, resguardam seus próprios interesses. Contudo, a humanidade necessita também dos sonhadores, para quem o desenvolvimento desinteressado de um empreendimento é tão cativante que lhes torna impossível cuidarem dos seus próprios interesses materiais."

BIBLIOGRAFIA

1. Ashburn N, McCauley E: Marie Sklodowska Curie: Her life as a media compendium.www.woodrow.org/teachers/chemistry/institutes/1992/MarieCurie.html.

2. Beauvoir S: O Segundo Sexo, 1908.

3. Curie E: Madame Curie. Tradução de Monteiro Lobato. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976.

4. Koenigsberg R: Churchill's Medical Dictionary. New York: Churchill Livingstone, 1989.

5. Lyons AS: Women in Medicine. In Lyons AS, Petrucelli RJ: Medicine: an illustrated history.New York: Harry N. Abrams, Inc, Publishers,1987, pp 565-575.

6. Thomas CL: Taber's Cyclopedic Medical Dictionary. Philadelphia: F. A. Davis Company, 1970.

7. Tosi L: Há 100 anos era descoberto o rádio. Ciência Hoje, 1998; 24:54-66.

 

Trabalho apresentado no programa de Mestrado em Educação da Universidade Católica de Santos, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Zilda da Cruz em setembro de 1999.

O Autor é editor da Acta Medica Misericordiæ, mestrando em Educação da Universidade Católica de Santos, professor de Propedêutica Neurológica da Universidade Metropolitana de Santos, professor de Neurocirurgia do Centro Universitário Lusíada, chefe do Serviço de Neurocirurgia da Santa Casa da Misericórdia de Santos, membro fundador da Sociedade Brasileira de História da Medicina, editor de revisão do Journal of Microsurgery, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e da Sociedade Brasileira de Medicina Legal, diplomado em Medicina pela Universidade de São Paulo e pelo Commonwealth of Pennsylvania.

 
 
     
 

 
 

Figura 1: O casal Curie em fotografia do Museu de História da Medicina de Paris

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